Caros Amigos Desamparados,
Após umas breves férias recheadas de paz e boa gastronomia lá pelas bandas serenas do nosso belo sudoeste alentejano, decidi ressuscitar este falecido espaço de maldizer para vos falar da má memória que me permanece ainda atravessada na garganta, de uma "inesquecível" noite passada junto ao porto de pesca artesanal, na bonita vila da Zambujeira do Mar.
Tratava-se de mais um fim de dia perfeito, na companhia de família e amigos. banhinho tomado, farpela estival a combinar, (ou disfarçar - como preferirem), a corzinha de lavagante mal escaldado que já me habituei a envergar por estas alturas de Verão. O local para o repasto dessa noite trazia boas referências de outros amigos que por lá já haviam afiado o dente, tão boas até, que justificou passar por lá no dia anterior, para assegurar a reserva de uma mesa. As perspectivas pareciam de facto animadoras, tanto até, que de bom garfo que sou, já salivava em seco por antecipação ao banquete em vista.
E assim jovialmente se sagrava esta nossa aventura gastronómica por terras alentejanas, justo até ao ponto que o triste conduto se apresentou perante estes infelizes comensais. Há primeira dentada em todos os pratos escolhidos, e quero frisar todos, com desmedida desdita, fizemos por engolir a saliva da antecipação juntamente com cada pedaço purulento de comida, para assim disfarçar o azedume.
O sítio de que vos falo, é um posto de restauração, tomado como referência na praça da costa vicentina há mais de um quarto de século, e chama-se Restaurante O Sacas.
Manuel Maria João, também conhecido por Sacas – pelo velho hábito de
sempre andar com as suas calças de serapilheira de ir ao mar - deixou a
faina há vários anos e dedicou-se desde então à grande paixão da mulher
Ana Maria: os petiscos e a cozinha. Quando abriu esta tasca junto ao mar,
nem foi preciso preocupar-se com o nome da casa, que foi desde logo
baptizada de Sacas pelos amigos e pescadores que ali comiam diariamente.
Hoje em dia, filha e genro fazem parte da equipa, o que torna este restaurante numa agradável casa de família.
Ana Maria, ou Ti Ana como também é conhecida, garante que sempre adorou
a alquimia da cozinha, adora experimentar pratos novos, usar
ingredientes diferentes e seguir a inspiração que lhe vem do sono, já
que muitas vezes sonha com receitas que não perde tempo em explorar.
E é por estas e por outras, que a fama e a publicidade, fazem uma casa, mas, garanto-vos, que nada substitui a experiência em primeira mão, tanto na formação de uma opinião, como na de um palato. Pois nessa noite em particular, ou o clã do velho Manuel Maria havia partido a banhos, deixando a cozinha nas mãos de um qualquer orangotango sem sentido de paladar, ou talvez quiçá a Ti Ana tenha efectivamente sonhado que mantinha um restaurante de renome recheado de alquimias gastronómicas de fazer água na boca, pois asseguro-vos de que aquilo que senti na boca, suscitava mais um sabor acre a vómito do que propriamente um deleite prazentoso de tais anunciadas iguarias.
A feijoada de búzios, que tive a infeliz sorte de pedir, assemelhava-se a uma travessa de água choca, onde alguém lançou alguns feijões encarnados mal cozidos, e onde talvez com um pouco de sorte, se pudessem encontrar os poucos escassos búzios, com a ajuda de uma peneira.
De entre os restantes desastres culinários que fizeram o caminho até à nossa mesa, ressalto a fritada de peixe, que se resumia a duas pobres metades de um infeliz animal, cauda e cabeça, envoltas em polme, fritas, e assim apresentadas numa travessa no esplendor da sua "frescura natural", certo foi que, no primeiro enfiamento do talher na sua carne mal passada, mal passada não, crua, revelavam de imediato o pungente aroma putrefacto de um peixe cuja frescura já havia passado do prazo havia alguns dias.
A caldeirada de lulas, sobressai pela originalidade das mesmas não serem sequer arranjadas ou limpas, o recheio destas é assim sendo, uma surpresa certa. O bitoque, para os miúdos menos apreciadores das carnes do mar, vinha ainda assim a nadar, em óleo alimentar, mal disfarçado sob o ensopado de batatas fritas. A carne de porco à alentejana, devia ser originária de uma insólita zona do Alentejo, desconhecida por todos.
Em conclusão, pois não me quero mais alongar sobre este autêntico pesadelo gastronómico, só vos posso afirmar com absoluta garantia, que tanto eu, como os meus familiares e amigos, somos todos pessoas do Norte, mas, ainda assim, não somos nem gente de apetites fastidiosos, nem tampouco alarves devotados ao enfarte de quaisquer mistela que nos coloquem à frente. Somos sim, gente de bom comer, com qualidade, alma e substância. E a nível pessoal, até vos adianto, que das gastronomias deste bom país onde vivemos, das quais tenho prazer em afirmar que de todas já fui provador, ressalto em sabor de excelência, as do Minho e as do Alentejo, porém, e é esta a razão de ser deste artigo, não podia deixar de demonstrar a minha veemente revolta perante este engano ludibriante que se chama restaurante Sacas. Desde já confesso, que o dito local estava à cunha na noite em questão.
A nós, infelizmente caiu-nos em saco roto, deixando-nos a azeda azia de uma refeição passada em branco, mas, por favor caros leitores, quando em viagem pela referida região, façam vocês mesmos uma visita a este local e tirem as vossas próprias ilações, só vos peço um favor, depois contem-me como foi.
E Agora, que obtive a vossa atenção!Voltarão Amanhã?
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