Caros Amigos Desamparados,
E Agora, que obtive a vossa atenção!Voltarão Amanhã?
A parvalheira não morreu, apenas entrou em latência prolongada, mas de tempos a tempos, algo dramático parece querer desperta-la do seu sono sossegado. É o caso da estória que vos trago hoje. Uma narrativa escabrosa dos tempos modernos.
Em certa medida, agradeço encarecidamente àqueles que, por inadvertência impulsionaram o desassossego deste sítio, sem eles, isto não seria uma parvalheira, mas sim uma pasmaceira. Agradeço com particular apreço aos doutos senhores da Associação da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas, e com especial atenção ao seu excelso presidente, o senhor António Domingues de Azevedo, que motivaram com veemência este texto que a seguir descrevo.
Querem as regras da deontologia literária, que se esclareçam sem mais delongas os leitores, acerca dos assuntos focados em qualquer texto escrito, não faltarei portanto a essa premissa. Faço no entanto, aqui um breve parêntesis para me certificar, de que, apesar de saber que poucos ou nenhuns irão lêr esta breve resenha de ódios, não me inibo ou evito de a escrever de qualquer das formas. A alma quer ar fresco a correr-lhe nos escaninhos mais recônditos, e é de fluência que este texto se trata, nada mais.
Neste maravilhoso país que é o nosso, deixou de haver lugar para a resolução imparcial de quezílias. A justiça mudou-se para paragens mais airosas, (ou quanto muito, agarrou-se com unhas e dentes a brisas mais cristalinas que sopram nos píncaros altaneiros do poder) e deixou-nos a todos, agarrados a infelizes ideias de soluções salomónicas que nunca se irão concretizar.
Ilustro um caso, muito perto de mim, (demasiado até, para me sentir morno em relação ao mesmo) de uma altercação entre um honesto cidadão, e a referida associação dos TOC's. Por infortúnio, ou talvez porque não existe outra forma de lhe escapar, (penso eu) alguém, que acabe se formando com licenciatura em Economia, vai buscar forma de sustento a esta associação, que pela sua natureza, acaba por vincar laços quase de um sindicalismo puro, aos referidos licenciados, possibilitando-lhes a hipótese, quanto muito, de ganharem algum sustento, exercendo as funções de contabilistas, se porventura outro caminho profissional não lhes seja possível.
O chato é quando tal não acontece, e a pessoa em questão, não é prossecutora de tal carreira. Poder-se-á imaginar, que a ligação à dita associação, já não fará sentido algum. Afinal, tomando-se como rumo de carreira, um intuito que não passa pelos estatutos profissionais que os TOC's limitam, não haverá razão alguma, para se manter associado a tal instituição. Certo? Poderão os meus caros leitores, argumentar que haverá um certo tom de mal feitoria aqui. De parte a parte, qual a legitimidade de nos agarrarmos a algo quando dele precisamos e larga-lo qual beata mal apagada, quando já dele não temos recorrência de interesse. É certo que qualquer jeito de justificação terá aqui de ser enjeitado. E assim o fez o cidadão em questão.
Todavia, é o dinheiro que fala mais alto sempre. Em Portugal como no resto do mundo. Convenhamos que este tipo de ingenuidade nem sequer nos fica bem. As quotas tinham de ser pagas, mesmo que as funções nunca tenham sido exercidas, e até mesmo nunca tendo sido emitida por parte da dita associação, uma cédula ou carteira de associado, referenciando o nosso cidadão. Estou a poetizar demasiado, dirão vocês.
E dizem bem. Esta é uma parcela do Portugal de hoje. É um dos seus retratos a sépia, rasgados nos cantos e desfocados na imagem. Após repetidas cartas recebidas incitando ao pagamento, o nosso "david" de hoje, remeteu uma carta sucinta ao "golias" implorando-lhe clemência pelos valores cobrados, pelos motivos que já vos expliquei. Esta foi linearmente ignorada. Aparentemente, não existe lugar para diálogos entre os TOC's e os seus associados, sejam estes legítimos ou pretensos, como é este o caso, quando o assunto em questão, diz respeito a dinheiro em falta. Admito que seja o sangue contabilístico que lhes fala mais alto aqui. O que não admito, é a grosseira impudência destes senhores, no trato humano de um diálogo por eles ignorado.
Novas ordens de pagamento chegaram, e a paciência de "david" permaneceu intacta. Qualquer erro deveria de haver ali, pensou este. A presidência dos orgãos da associação mudou entretanto, e parece que o "golias" ainda ganhou mais altura intimidadora (se tal for possível).
Por fim, chegou um ultimato. "Ou pagas ou.." Ainda assim, este pacato cidadão, voltou à via apaziguadora do diálogo, e nova carta lhes foi enviada. Fluente, bem articulada, sem ponta de agressividade passiva ou de outro modo. A um ultimato, diz a diplomacia, que se deve ainda assim responder com calma e apaziguamento, colocar a questão em perspectiva, e fazer ver ao interlocutor ambas as razões. Não é de diplomacia que vive a justiça nacional, mas de interesses maiores. Não há oportunidades para os "davides" portugueses, não lhes é permitido explicações em última instância. Quase um ano depois da última comunicação, vem este cidadão responsável descobrir, que, sem aviso prévio, o tribunal lhe congelou o salário numa penhora, a pedido da associação dos TOC's.
Confesso não ter muito mais que dizer acerca desta situação, excepto talvez apenas uma resenha final. Este país não é para fracos, para "davides" munidos apenas com fisgas de moralidade e sentido de diálogo. Tornou-se um lugar onde a justiça se faz célere entre quem pode, e brutal para quem é obrigado a acata-la. É sobretudo um lugar onde não restam espaços para alegres ingénuos, o dinheiro é quem manda, e quem o tem, pode mandar. Tudo é o resto é fantasia de Telejornais.

Este país não é para tesos!













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